segunda-feira, 15 de junho de 2009

Entrevista de Bruno Senna à Revista Racing


O brasileiro Bruno Senna , que carrega o peso de um dos maiores sobrenomes da historia do automobilismo mundial,visitou a redação da Revista RACING para um bate papo descontraido sobre a sua carreira e o seu futuro.

O jovem piloto, que compete atualmente na Le Mans Series pela ORECA, esta bem focado em seus objetuvos e deixou claro que seu maior sonho – que está prestes a ser realizado – é o de participar da Fórmula 1.

Para isso, já negocia com diversas escuderias, visando um cockpit para a proxima temporada. Confira como foi a conversa.

RACING - Depois de quase 10 anos parado, você decidiu começar a competir profissionalmente no automobilismo. O que passava em sua cabeça?
BRUNO SENNA- Eu nunca deixei de gostar de automobilismo, de carro. Mas eu não tinha nenhuma autonomia para tentar ir atras disso sem o apoio da minha familia.
Então, quando eu tinha 17 anos , minha mãe me perguntou o que eu queria fazer da vida .Aí falei: “Ah, fez a pergunta errada “(risos).Depois disso, conversamos e ela ficou surpresa. Nem brava e nem irritada , apenas surpresa,já que eu não falava desse assunto há um tempão. Ela achou que eu não gostava mais. Aliás , ela nunca disse que não queria que eu corresse, mas quem me levava pra fazenda pra andar de kart era o Miltão, meu avô, e assim que teve o acidente do Ayrton ele não quis mais que eu corresse. Até hoje, está insatisfeito por eu estar competindo. Ele sempre deixou bem claro que não gosta e acha que é um risco desnecessário.

RACING - Como foi a sua primeira experiencia na volta ao automobilismo?
BRUNO SENNA- – Meu primeiro contato com um monoposto foi um treino privado de meio dia de F-Renault em Interlagos. Consegui andar bem logo de cara .Nesse teste,deu para sentir que era isso que eu queria para a minha vida. Depois, andei três dias com o Augusto Cesário, de Formula 3, em Campo Grande. Com aquele F3 de 1994, com assoalho plano... Tive um trabalhão com o carro, porque ele derrapava facilmente de traseira nas curvas.

RACING - Você andou de F3 depois de uma experiência de meio dia?
BRUNO SENNA- Sim, eu comecei a andar bem e, no segundo dia, já consegui tempos bem rápidos. Claro que eu era inconsistente,tinha volta boa e volta ruim. Na verdade,essa questão de eu andar de F3 com pouca experiência anterior não foi um grande problema. Nunca tive dificuldade de andar rápido, seja com carro de rua,com qualquer coisa. Sempre consegui explorar o limite do bólido. O difícil era saber fazer tecnicamente aquilo,com constância.

RACING -Depois disso, resolveu competir na Fórmula BMW...
BRUNO SENNA- Isso. Quando vi que tinha uma oportunidade, fui para a Europa andar de F-BMW e tive dificuldades no inicio, porque a temperatura é baixa e você precisa se acostumar com novas técnicas, uma nova língua etc. Eu tinha facilidade de andar rápido, mas faltava consistência. Ao todo, fiz 14 dias de treinos de Fórmula BMW antes da primeira corrida. Sete dias foram na chuva, porque na Inglaterra não tem jeito. No molhado, eu sempre fui mais rápido que os outros pilotos, mas, no seco, eu ainda não estava muito bem. Mas logo eu comecei a andar no ritmo do pessoal que liderava, então decidimos que eu deveria fazer umas corridas antes de 2005. Fiz as três últimas etapas pela equipe Carlin. Meu engenheiro era o Anthony “Boyo” Hieatt, que criou a Double R Racing. A gente se deu muito bem em termos de comunicação. Ele conseguia interpretar o que eu dizia e eu confiava nele. Então foi uma boa experiência. Assim que ele falou que queria fazer esquipe de F3 eu pensei “vou com eles”. Na verdade, para o primeiro ano, foi um erro. Se eu tivesse um pouco mais de conhecimento, teria ficado na Carlin naquele ano,onde eu teria um companheiro mais experiente. Como corri ao lado de um piloto novato, era difícil. Se o carro não estivesse bom, não sabíamos o que fazer ... Foi um erro de trajeto, mas que no final das contas não atrapalhou.
Depois disso, tive alguns altos e baixos. No fim de 2005, eu já estava bem competitivo. Em 2006, eu era rápido, mas cometia alguns erros ainda. Cada ano foi de um aprendizado diferente. Sempre tinha algo a aprender e eu me focava naquilo. Cada passo que eu dava, já buscava rapidamente melhorar no próximo. Então foi um caminho eficiente para eu conseguir crescer rapidamente.

RACING -Seu conhecimento nas pistas foi demorado?
BRUNO SENNA- Os pilotos das categorias pelas quais eu passava já sentiam que eu podia ser uma ameaça e até eram duros comigo na pista. Mas sempre existiram as pessoas que acreditaram que eu estava onde estava apenas por causa do meu sobrenome. Isso é uma coisa, até hoje,que eu só posso provar o contrário com os resultados.

RACING - Como é a reação de andar em um carro da Fórmula 1 ?
BRUNO SENNA- É um absurdo. Mas a minha primeira experiência foi com um modelo com pouco downforce e com pneus slicks. Então, o pulo da GP2 para o F1 foi mais uma questão de potência, peso, freio. Enfim, aderência em geral. Em termos dinâmicos, é um GP2 mil vezes melhor. A grande dificuldade inicial foi conseguir aproveitar tudo o que o carro dispunha logo de cara. Eu mal lembrava quais eram todos os botões do volante . É um carro de corrida como qualquer outro, que sai de frente, de traseira, trava a roda quandro freia, derrapa quando acelera. Mas, tudo isso, em um nível bem superior.

RACING - A GP2 tem um papel importante na formação do piloto?
BRUNO SENNA- Sim. Mesmo com a falta de treino, se você for inteligente, aprende muito. Sempre conversa com o pessoal sobre o motor, a eletrônica, então você aprende bastante a trabalhar rapidamente. Os pneus também são os mesmos da F1 (mesma marca, Bridgestone) e essa é a grande sacada da categoria... O estilo de pilotagem acaba sendo parecido. A utilização do freio também é bem semelhante.

RACING - Você vê a Le Mans Series como uma real opção para o futuro?
BRUNO SENNA- Só bem para o futuro, quando eu estiver mais velho(risos). Eu sinto que ainda não tenho maturidade para competir de endurance. Estou aprendendo muito com a ORECA, principalmente na parte técnica, mas me falta maturidade para participar de forma mais ativa, porque é um estilo diferente . Ainda tenho agressividade demais dentro de mim. É difícil, pra mim, recuar nisso sem perder tempo. Nessa categoria é tudo como uma estratégia, economizando combustível, pneu. Isso tudo que vai te levar a terminar a corrida com uma volta a mais ou a menos. Preciso aprender mais como piloto para sentir prazer em correr de endurance.

RACING - Você consegue definir o seu estilo de pilotagem ?
BRUNO SENNA- A freada é um ponto forte meu . Foi onde eu ganhei muito tempo no teste da DTM, com pneu velho ou novo. Eu tenho uma boa técnica de frenagem, com pé esquerdo. Meus pontos fortes são :principalmente, as freadas e as curvas de alta velocidade. Mas a técnica ainda precisa ser aprimorada nas curvas de baixa, que é onde você consegue ganhar mais tempo. No meu teste de Fórmula 1 com a Honda no ano passado, nas curvas de alta eu era mais rápido que o Jenson Button, mas em algumas de baixa ele era mais veloz que eu. Até a última chicane de Barcelona, nossa ali ele ganhava 0s2 em relação ao meu tempo. Ele conhecia mais o carro e sabia como contornar melhor as curvas mais técnicas.

RACING - Como estão as negociações para o ano que vem?
BRUNO SENNA- As chances de eu entrar na F1 em 2010 são boas . Acho que vai acontecer uma dança das cadeiras. Então, acredito que vai aparecer uma ou duas vagas dos pilotos atuais , além dos times novos ... Estamos tendo boas conversas com as equipes que já estão lá e com as que ainda vão entrar .

RACING - Não ter assinado com a Mercedes pode impedir você de correr por equipes que têm motores da marca?
BRUNO SENNA- De forma alguma. Isso só me abriu as portas. Eu queria correr de DTM com eles, mas precisava ter um programa de F1 junto e eles não puderam assegurar isso. Eu faria algo para a DTM e seria um piloto Mercedes apenas nessa categoria, mas não na F1. Então, a percepção das outras sete equipes seria de que eu sou um piloto Mercedes e estaria fechado para os outros times. Assim, todas essas oportunidades seriam riscadas imediatamente. Por isso, decidimos que era melhor ficar livre. Em geral, de forma alguma isso atrapalhou o nosso relacionamento com a Mercedes e correr com eles ainda é uma opção.

RACING - Por fim, o que você gosta de fazer fora das pistas?
BRUNO SENNA- Gosto muito de música eletrônica, áudio hi-fi, de alta definição. Estou montando, em Londres, um sisteminha legal. Mas é um hobby bem caro, então vou bem devagar, comprando uma caixinha ali, outra aqui. Tenho bastante satisfação nessa área, é bom para descansar.

Fonte: REVISTA RACING

Galeria de Fotos: a semana de Bruno Senna em Le Mans







Fotos: Oreca Racing